terça-feira, 20 de outubro de 2009

A propósito das Telenovelas e Histórias de Encantar!

E foram felizes para sempre...


"Tenho uma filha de 11 anos, uma de 5 e um rapaz de 4 anos que estão verdadeiramente obsecados pela telenovela Morangos com Açucar. Já não posso ouvir a música da série que a minha filha ouve em casa contínuamente, os posters estão por todo o lado e a hora da série que até ao domingo passa, é sagrada! Não sei lidar com esta situação sobretudo porque não percebo qual o fascínio? A série tem uns míudos que em nada se parecem com eles, que aparentemente não fazem nada, a não ser gastar tempo a andarem de um lado para o outro, a namorar.... nem eu nem o meu marido gostamos muito de televisão e eles passam horas infinitas a ver o DVD sempre que não estamos em casa."

A imagem e a telenovela actualmente substituem os contos de fadas que povoavam a fantasia da infância e adolescência há alguns anos. As séries para as crianças e adolescentes não são mais do que variações de contos tradicionais em que há sempre o “giro” um pouco parvo que vem montado num cavalo branco e nos tempos modernos numa mota ou num descapotável que se dedica sempre a desportos radicais e cujo aproveitamento escolar não consta da história. Os adultos pais que nunca foram princípes projectam que esta criatura se vai tornar técnica de máquinas de fotocópias quando crescer e que gosta sempre das mulheres pela sua beleza acabando sempre com a feia mas muito boazinha que engravida cedo demais. Existe a princesa rica e prepotente filha da madrasta horrível que manipula a história toda e que se sai sempre mal. O jardineiro pobre afinal filho ilegítimo e verdadeiro irmão da rica e má. Com pozinhos de intriga mentiras, dinheiro e traições é a telenovela perfeita para que todos nós nos possamos identificar e alimentar a fantasia de controle da realidade.
As crianças e os adolescentes mais sensíveis aos mecanismos de identificação e à procura de referentes externos que confirmem as identificações da família e do seu próprio meio sentem-se fascinados por poderem ver a vida a cores e os maus a serem castigados. Claro, que as questões da sexualidade, namoros e traições mobilam muitas vezes as fantasias de como é que as relações amorosas e de amizade se passam no real.
Todas as histórias são banais no quotidiano comum e não queremos assistir à nossa realidade. Do que serve vermos pessoas a trabalhar, com dificuldades financeiras a pagarem empréstimos de habitação, a executar refeições ou a passar a ferro. Todas as crianças, adolescentes e adultos querem fingir que esse não é o cenário real é só uma promessa dos acontecimentos excitantes que se vão passar na nossa própria vida. Quantos de nós conhecemos princesas e principes quando eramos pequeninos ou vimos lobos maus na floresta? Não é por isso que acreditamos de forma real nestes contos. Os contos vão sim, directos à nossa linguagem simbólica com valores éticos e morais e formas de resolução da realidade que nos alertam para um percurso comum a muitas pessoas.
A história dos três porquinhos e do lobo mau em que há uma casa de palha, uma de madeira e outra de tijolo que serve por fim de abrigo a todos os irmãos tenta demonstrar que o trabalho e a persistência são recompensados e que devemos ser generosos com os que troçam de nós. A história da Branca de Neve remete para os sete pecados mortais em número de sete anões que agora são muito trabalhadores e retiram diamantes da terra; anões esses que têm nomes que revelam as fragilidades infantis que os pais tentam combater, é o zangado, o preguiçoso , etc. A Branca de Neve é uma jovem linda, pura e um pouco parva que se deixa enganar pelas aparências e escolhe a maçã perfeita mas que constitui a tentação do paraíso e como tal é uma Eva castigada. Em vez de estar nua está metida numa redoma transparente e isolada num sono só interrompido pelo principe perfeito isento de qualquer pecado.
A do Capuchinho Vermemlho uma menina com o capucho simbólico da tentação e do aparecimento da menstruação, uma púbere (jovem entre os 10 e 12 anos) em que são ensaiados os primeiros passos de autonomia como muitos de nós não ouvem a voz da experiência e a simbólica do amor parental que aparece na história como uma relação entre a mãe e a avó. A menina atravessa a floresta onde surgem várias tentações nomeadamente aspectos da sexualidade aparecem na figura do lobo mau que refere aspectos transformados do corpo como evocadores da relação, tem ouvidos grandes porque a menina o está a ouvir, tem olhos grandes para a ver, e uma boca enorme para a devorar. Não sabemos se a mãe do capuchinho não será uma mãe solteira que não tenha caido ela própria na tentação, seduzida por um caçador qualquer mascarado de cordeiro.
Assim, todas as histórias alimentam a fantasia de que controlamos a realidade com exemplos de outros. Esta realidade é longinqua para todos nós, e é para isso que existem telenovelas para adultos e para crianças em que o facto de serem quotidianas nos dá uma ilusão de participação activa na vida das personagens, muito mais interessante e excitante que a nossa. Mas, existem muitas telenovelas anónimas, basta ir a uma sala de espera de um Centro de Saúde em que cada grávida ouve histórias de gravidezes e partos indiscritiveis em que o único detalhe aparentemente feliz é o nascimento final de uma criança. Ou os casamentos dos filhos dos nossos amigos que são cheios de peripécias e precalços enquanto os dos nossos são sempre tranquilos, fiéis e sem história, porque são sempre felizes.
Em suma as histórias e as telenovelas são fundamentais para o nosso crescimento e o enriquecimento simbólico se confrontadas com os aspectos da realidade do nosso inconsciente colectivo desmistificando aspectos assustadores ou irreais que são uma constante o que no fundo não é muito diferente de tranquilizar um filho de 3 anos que acredita em monstros por debaixo da cama.

1 comentário:

  1. A propósito das histórias de encantar, só me ocorre que beijar o sapo é sempre melhor, é mais ousado... Quem sabe as surpresas que a vida nos reserva?

    Um Abraço

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